O javali, o cavalo e o caçador

O javali, o cavalo e o caçador

Após o impeachment de Dilma Roussef, em 2016, o governo de Michel Temer ascendeu como o primeiro de ideologia liberal e conservadora, após mais de 20 anos de governos da esquerda progressista, nas mãos do PT, e sociais-democratas (no nome), pelo PSDB.

Uma das primeiras pautas do governo Temer foi a flexibilização das leis trabalhistas que, conforme se vociferou à época, destravaria a atividade econômica, atrairia novos investimentos e, por conta disso, provocaria um aumento explosivo na geração de empregos e postos de trabalho. 

As chamadas novas formas de trabalho, assim como o trabalho intermitente, o incentivo à terceirização e a liberdade de negociação entre trabalhadores e empresas sem a assistência dos sindicatos, foram imediatamente encampados como substrao da grande reforma liberalizante da economia, que se ressentia dos estragos que lhe causara o economicamente desastroso governo de Dilma Roussef. 

Pouco mais de 5 anos da dita reforma trabalhista, porém, nos deparamos, na última semana, com a notícia de que o Ministério Público do Trabalho no Rio Grande do Sul deflagrou uma operação que libertou mais de 50 trabalhadores que se encontravam em condições análogas à escravidão, trabalhando em regime de terceirização em famosíssimas vinícolas da serra gaúcha. 

O episódio me fez lembrar a capacidade (bestial) que temos, enquanto sociedade, de nos unirmos a ideias e ideais que são equivocadas a priori. Ou seja, sabíamos, ou poderíamos prever claramente onde isso iria dar... 

A fábula O javali, o cavalo e o caçador, escrita por Esopo (620 - 564 a. C.), que estampa o primeiro capítulo do livro Como as democracias morrem, dos cientistas políticos Steven Levitski e Daniel Ziblatt, pareceu-me perfeita para ilustrar essa nossa capacidade de celebrar alianças, sem se dar conta da real intenção delas: 

Surgira uma séria disputa entre o cavalo e o javali; então, o cavalo foi a um caçador e pediu ajuda para se vingar. O caçador concordou mas disse: "Se deseja derrotar o javali, você deve permitir que eu ponha esta peça de ferro entre as suas mandíbulas, para que possa guiá-lo com estas rédeas, e coloque esta sela nas suas costas, para que possa me manter firme enquanto seguimos o inimigo." O cavalo aceitou as condições e o caçador logo o selou e bridou. Assim, com a ajuda do caçador, o cavalo logo venceu o javali, e então disse: "Agora, desça e retire essas coisas da minha boca e das minhas costas". "Não tão rápido, amigo", disse o caçador. "E o tenho sob minhas rédeas e esporas, e por enquanto prefiro mantê-lo assim".

Cuidado com as companhias, e bom resto de semana!

 

Eduardo Pires

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