Eu não consigo respirar

Como todos sabemos, foram essas as últimas palavras de George Floyd antes de morrer asfixiado durante uma abordagem policial, nos Estados Unidos, no dia 25 de maio de 2020.

Numa macabra coincidência, exatos dois anos depois, e ainda que não tenha pronunciado as mesmas palavras, certamente foi o que sentiu Genivaldo Santos ao morrer sufocado numa espécie de câmara de gás improvisada, como todos nós, incrédulos, pudemos assistir.

À imprensa, o presidente Bolsonaro pediu comedimento, afirmando que sempre há um discurso a favor da “bandidagem”. Acontece que Genivaldo não era bandido, réu ou mesmo condenado.

Mas, ainda que fosse, que tipo de autorização legal, moral, ética, ou de qualquer outra natureza, teriam os policiais para agirem de tal modo? Afinal, a pena de morte, além de não se aplicar no Brasil em tempos de paz, também não pode ser imposta à revelia do devido processo legal, muito menos pela polícia ou quaisquer outras forças de segurança.

Assim como ocorreu na Vila Cruzeiro, no Rio de Janeiro, na semana passada, quando 23 pessoas foram mortas numa “operação policial”, viver deixou de ser garantia constitucional, sendo relegado à mera expectativa de direito condicionada, no mais das vezes, à cor da pele, classe econômico-social ou mera banalização da condição humana.

Dia desses, ouvi um influencer dizer que precisamos armar as crianças para que possam elas se defenderem dos bandidos e pedófilos...

Não sei você, mas, confesso, há tempos também não tenho conseguido respirar.

 

Eduardo Pires