A flexa, a palavra e a oportunidade

Segundo um conhecido provérbio chinês, há três coisas na vida que nunca voltam atrás: a flecha lançada, a palavra pronunciada e a oportunidade perdida.

No último domingo, dois assuntos dominaram as redes sociais e noticiários: a aparente censura que o TSE impôs ao Lollapalooza com relação às manifestações de cunho político feitas pelos artistas que nele se apresentaram; e o surpreendente bofetão dado por Will Smith em Chris Rock no meio da pomposa cerimônia de entrega do Oscar.

Nas duas situações, em comum, uma única circunstância: alguém não gostou do que o outro disse e reagiu.

O PL, de Bolsonaro, reclamou ao TSE que as manifestações de Pabllo Vittar e da cantora britânica Marina caracterizavam propaganda política ilegal em favor de um pré-candidato contra outro. O Ministro Raul Araújo, numa decisão desastrosa, determinou que não poderia haver manifestações políticas no festival de música.

A decisão pegou tão mal perante sociedade, imprensa, artistas e até apoiadores do presidente – que viram nela inescondível censura contra a liberdade de expressão – que o próprio PL, na segunda-feira, desistiu da representação. Ou seja, “deixa pra lá...”.

O PL, convenhamos, perdeu a grande oportunidade de não fazer a representação e ter de lidar com o embaraço de ser taxado como repreensor da liberdade de expressão. E nem adiante dela se desculpar.

O Ministro, por sua vez, ciente da inglória derrapada que havia dado, extinguiu o processo e argumentou que sua decisão de multar o evento foi tomada "com base na compreensão de que a organização do evento promovia propaganda política ostensiva estimulando os artistas" a se manifestarem politicamente –o que não era verdade.

Para tentar limpar a própria barra, afirmou em sua decisão o óbvio: "os artistas, individualmente, têm garantida, pela Constituição Federal, a ampla liberdade de expressão".

Ou seja, ao impor a censura através de uma decisão precipitada e mal ajambrada, o TSE perdeu a oportunidade de reafirmar a garantia da liberdade de expressão e deixar bem marcado que, enquanto instância eleitoral, agirá na irrestrita defesa dela, principalmente nas tumultuadas eleições que se avizinham.

Como não o fez num primeiro momento, teve de se desculpar.

A Will Smith também não restou alternativa senão, publicamente, pedir desculpas a Chris Rock, a Academia de Cinema e todo o público que assistiu a destemperada reação dele às lamentáveis dirty jokes do comediante que, definitivamente, não cabem mais em tempos em que empatia e compreensão das dores e vulnerabilidades do próximo é a grande habilidade emocional a ser desenvolvida e fomentada.

Embora compreensível a atitude de Will Smith pelo viés psicológico, seria impensável apoiá-la ou concordar com ela. Tanto assim, que ele próprio cuidou de se retratar, não deixando passar a oportunidade de fazê-lo como verdadeiro reconhecimento do erro, como o fazem somente os corajosos.

Eduardo Pires