Não podemos mais fingir que não é conosco

Hoje eu poderia falar sobre qualquer outro assunto. Mas, de novo, seria apenas mais uma tentativa de não querer ver – e falar – sobre o que é óbvio e diz respeito a todos nós: a vida de outra pessoa.

Com atraso de uma semana, circulou ontem, na imprensa, o caso do assassinato abjeto, torpe e revoltante do congolês Moise Kabagambe, morto a pauladas por, supostamente, ter cobrado diárias pelo trabalho prestado num quiosque na badalada praia da Barra da Tijuca.

Há algum tempo venho acompanhando a discussão sobre existir ou não um racismo reverso, pelo qual negros também poderiam repudiar, maltratar, serem odiosos ou mesmo preconceituosos e praticar atos de violência contra brancos ou pessoas de outras etnias.

Francamente, acredito que um negro – assim como um branco faz contra ele – poderá sim ser capaz de fazer tudo isso. Mas, caso o faça, nunca será racismo.

O racismo é consequência pura, direta e abominável da escravidão do povo negro durante quase 400 anos, e em todo mundo.

Moise deixou a República Democrática do Congo (que no século XIV foi o poderoso “Reino do Congo”), para não morrer na permanente guerra civil daquele país, e ser morto, a pauladas, na cidade maravilhosa.

Moise morreu dessa forma desumana e odiosa não porque era pobre ou estrangeiro, mas especialmente porque era negro. E, por mais que isso possa desagradar aqueles que empunhem a bandeira do racismo reverso ou às avessas, basta que se atente ao sentido de reverso ou avesso.

Neste exato momento, mesmo sendo branco e ciente de todos os privilégios que tenho por conta disso, só consigo sentir uma profunda vergonha de ser humano.

Eduardo Pires